Li Ziqi, criadora de conteúdo chinesa, converteu tarefas cotidianas do interior da província de Sichuan em narrativas que são acompanhadas por dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Seu canal no YouTube, dedicado a cultivos, culinária, marcenaria de bambu e técnicas artesanais, tem cerca de 33 milhões de inscritos, com mais de 3 bilhões de visualizações, sendo atualmente o maior canal em língua chinesa da plataforma. Ela também é popular no Douyin, a versão original do TikTok, e outras redes disponíveis na China.
Cenas da jovem vlogger a apanhar ingredientes do seu jardim e, às vezes, das montanhas e rios próximos da sua residência, e preparando pratos apetitosos no seu wok aquecido a lenha, são os vídeos com mais visualizações. Li enfatiza o papel das estações do ano nos pratos que prepara, com base nos 24 termos solares tradicionais da China e na influência que estes têm sobre a escolha dos alimentos e dos seus benefícios para cada altura.
Volta ao campo para cuidar da avó
A hoje influenciadora cresceu com os avós na aldeia de Mianyang, província de Sichuan. Nascida em 1990, aos 6 anos de idade perdeu o pai. Li sempre foi habilidosa com as mãos, ajudando o avô em tarefas de carpintaria e a avó nas lides domésticas. Aos 14 anos, migrou para a cidade em busca de trabalho, algo comum entre jovens chineses que vivem na zona rural.
Em 2012, decidiu voltar à aldeia para cuidar da avó, cuja saúde exigia atenção, e reassumiu atividades como plantação, colheita, preparo de alimentos e trabalhos manuais. Por volta de 2015 e 2016, passou a registrar essas rotinas em vídeo, inicialmente como forma de documentar a vida ao lado da avó.
Os vídeos de Li não começam com o resultado final. Ela costuma mostrar o ciclo completo: colhe plantas, prepara ingredientes, corta bambu, trabalha a madeira e acompanha cada etapa até o produto pronto. Essa estrutura transforma atividades cotidianas, mostrando coisas como fermentação, tecelagem, carpintaria e produção de papel, que viram histórias com começo, desenvolvimento e fim.
Alguns projetos demandam meses de trabalho. A série sobre os “quatro tesouros” da escrita chinesa (pincel, tinta, papel e pedra de tinta) exigiu cerca de um ano de preparação, embora o vídeo final dure poucos minutos.
Silêncio torna material de fácil compreensão
Li quase não fala diante da câmera e, quando aparece conversando, geralmente usa o dialeto local. A narrativa é conduzida pelos sons da chuva, das ferramentas, do fogo, dos animais e dos alimentos sendo preparados, permitindo que espectadores de diferentes idiomas acompanhem a sequência das ações sem depender de diálogos ou legendas.
Essa escolha facilitou a expansão internacional do canal. Em 2021, com 14,1 milhões de inscritos, Li recebeu do Guinness World Records o título de canal em língua chinesa com mais inscritos no YouTube. Ela tem apenas 131 vídeos publicados, um volume bem menor que os canais com número parecido de inscritos.
Produção cuidadosa
Nos primeiros anos, Li montava o tripé, iniciava a gravação, executava a tarefa e voltava para interromper a câmera, método que ajudou a formar o estilo de planos fixos que permanece em seus vídeos. Com o crescimento do canal, passou a contar com cinegrafista e assistente, mas seguiu responsável pela direção, enquadramento e escolha do que seria mostrado.
A paisagem apresentada é cuidadosamente construída. Em uma entrevista, ela reconheceu que não filmava toda a sua realidade, mas a vida que desejava representar, tornando os vídeos menos parecidos com um documentário, e mais uma narrativa artística baseada em experiências reais.
Ela ficou bastante tempo sem publicar, mas seus vídeos acumulam milhões de visualizações no YouTube no mesmo dia em que são lançados, mostrando que há um interesse do público no que ela faz.
A influenciadora não vive do dinheiro que arrecada com o canal e pretende dedicar mais espaço ao patrimônio cultural imaterial da China. Ao longo dos anos levou milhões de espectadores a visitarem a região de uma comunidade rural onde vive, em Sichuan.
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