"Tão ruim que chega a ser bom": animação caseira se torna o maior fenômeno do cinema chinês do ano
A animação chinesa "Niu Lai" (牛来, algo como O Touro Está Chegando) conta a história de um bezerro que aprende a andar. Desenvolvida por uma mãe e seu filho, que não tinham nenhuma experiência prévia em animação, foi produzida em cerca de cinco anos com orçamento de cerca de R$ 1.000.
Aposta de uma distribuidora, não teve mídia para divulgar. Seus visuais 3D extremamente limitados não chamaram atenção no início. Nos primeiros 10 dias de exibição, não atraiu muita gente mas, graças à divulgação espontânea em redes sociais, acabou se tornando o fenômeno inesperado do ano nos cinemas da China.
O filme já ultrapassou 49 milhões de yuans em bilheteria, cerca de R$ 37 milhões na cotação atual. Mas a estimativa da consultoria Tianjin Maoyan Weiying Culture Media é que a bilheteria final chegue entre 133 e 135 milhões de yuans, o que colocaria "Niu Lai" entre os retornos mais altos da história do cinema, uma vez que seu orçamento foi menos de .
Lançado em 5 de agosto em 245 cinemas, sem trailer, sem entrevistas na TV e sequer um cartaz promocional profissional, o filme foi praticamente ignorado: vendeu só 236 ingressos em nove dias e chegou a ser reduzido a apenas 4 salas em 14 de agosto.
A virada começou quando um post nas redes sociais chinesas destacando a qualidade sofrível do filme viralizou em 14 de agosto. O público ficou curioso para saber o quanto o filme era realmente ruim. Assim, disparou as pré-vendas: mais de 100 mil yuans em 15 de agosto. A partir daí, mais vídeos e uma geração acelerada de memes fizeram o número de sessões diárias saltar para centenas e, depois, milhares.
O impacto de um meme
O gatilho do meme começou com o cartaz pintado à mão em estilo tradicional chinês de algumas redes de cinema, uma improvisação que se espalhou rápido. Os funcionários de cada sala fizeram a sua própria versão. A crítica comparou a qualidade visual a uma apresentação de PowerPoint e alguns com animação de videoclipes da década de 1990.
O diretor de animações Zhou Shengwei comparou o fenômeno a clássicos do cinema, "tão ruim que chega a ser bom" que no passado ajudaram a projetar filmes como "The Rocky Horror Picture Show" (1975) e "The Room" (2003).
O humor típico das redes transformou o filme em uma série de publicações virais e resumiu o sentimento geral com a frase "você pode se arrepender por 80 minutos se assistir, mas, se não assistir, vai se arrepender pelo resto da vida. A plateia começou a ir ao cinema fantasiada, com máscaras do personagem principal, repetindo o comportamento de sessões de franquias de sucesso.
Segundo a mídia, parte do público passou a elogiar a animação de baixa qualidade, mas feita por seres humanos, como uma resposta à estética "perfeita" associada à inteligência artificial. O debate se tornou um ponto importante pelo cenário atual das produções cinematográficas.
Nas redes sociais, o filme foi descrito como “totalmente artesanal” e “um trabalho manual”. Um usuário chinês escreveu no X (antigo Twitter): “Muitas pessoas sentem que, na era da IA, ter cineastas que ainda se apegam à animação ‘artesanal’ e ao esforço genuíno é mais honesto e poderoso do que produções polidas, mas vazias”.
Quem são Xin Yumeng e Sun Lifang
O diretor Xin Yumeng, ex-designer de interiores, e sua mãe, Sun Lifang, que aprendeu roteiro sozinha para ajudá-lo, são a equipe do filme. Os dois desempenharam as funções de direção, roteiro, fotografia, edição, animação, trilha sonora e até dublagem.
A produtora, a Dalian Jingyuan Culture Film and Television Media, era originalmente uma empresa de decoração de interiores fundada em 2016, que só mudou seu registro para produção audiovisual em julho de 2021. Xin teve a ideia do projeto em 2021, escolhendo uma vaca como protagonista porque seu pai nasceu no “Ano do Boi”, signo do zodíaco chinês daquele ano. A produção levou mais de cinco anos e custou alguns milhares de reais, com equipamentos comprados em segunda mão porque computadores top de linha eram caros demais.
Xin afirmou não ter usado ferramentas de inteligência artificial simplesmente porque elas ainda não existiam de forma acessível quando o projeto começou, em 2021. Desde que o filme virou fenômeno, o diretor comentou sobre a ausência de marketing: "Sinceramente, para um filme como o meu, não faz sentido fazer nada disso. Devemos simplesmente lançá-lo. Quanto a saber se o público e o mercado vão aceitá-lo, só o tempo dirá".
Não há previsão de que o filme chegue ao Brasil, mas já existem planos de lançamento em países asiáticos.
Rivais de peso
Mesmo como produção caseira e independente, "Niu Lai" chegou a rivalizar em bilheteria com lançamentos de peso como "A Odiesseia", de Christopher Nolan, e "Homem-Aranha: Um Novo Dia", já figurando entre os dez filmes de animação com maior bilheteria da China em 2026.
Algumas empresas já pegaram “carona” no sucesso, com imitações. e a repercussão consolidou "Niu Lai" como um marco cultural de 2026. Nas plataformas de compras online há uma grande variedade de mercadorias não oficiais do filme, desde peças de plástico criadas em impressoras 3D até camisetas e canecas, uma repercussão digna de um sucesso de Hollywood.







