Comunidades chinesas em todo o mundo celebram em 17 de fevereiro de 2026 o início do Ano do Cavalo de Fogo, a festa mais importante do calendário chinês. Conhecida como Festival da Primavera (Chūnjié), a data marca a chegada de um novo ciclo no zodíaco chinês e mobiliza tradições milenares mantidas há mais de 3.500 anos.
As comemorações oficiais duram até 3 de março de 2026, quando ocorre o Festival das Lanternas. Durante esse período, cerca de 400 milhões de chineses devem viajar para reunir-se com suas famílias, segundo dados históricos do Ministério dos Transportes da China — o que caracteriza a maior migração humana anual do planeta.
O calendário chinês é lunissolar, baseado nos ciclos da Lua e do Sol. Por isso, a data do Ano Novo varia entre o final de janeiro e meados de fevereiro. Diferentemente do calendário gregoriano, que segue apenas o movimento solar, esse sistema combina astronomia com tradições agrícolas ancestrais.
Embora tenha origem na China, o Ano Novo Chinês é celebrado em países com grandes comunidades chinesas, como Nova York, Londres, São Francisco, Sydney, Singapura, Vancouver e São Paulo. Em todas são realizados festivais de tua com danças do dragão e do leão, apresentações de artes marciais e shows pirotécnicos.
O Ibrachina tem trabalhado pela inclusão da data no calendário oficial em cidades brasileiras, já sendo lei em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Foz do Iguaçu e Campinas. A celebração foi incluída pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Nomenclatura tradicional combina animais e elementos
Cada ano no zodíaco chinês é representado por um dos 12 animais (rato, boi, tigre, coelho, dragão, cobra, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e porco) combinado com um dos cinco elementos (madeira, fogo, terra, metal e água). O ciclo completo se repete a cada 60 anos.
O Cavalo ocupa a sétima posição na ordem zodiacal. Segundo a lenda, o Imperador de Jade organizou uma corrida entre animais para determinar essa sequência. O Cavalo, apesar de veloz, chegou em sétimo lugar — posição considerada auspiciosa na numerologia chinesa.
Na cultura tradicional, o cavalo simboliza força, vitalidade e liberdade. Historicamente, o animal foi essencial para a agricultura, o transporte e as conquistas militares chinesas, incluindo as rotas comerciais da Rota da Seda. Quando associado ao elemento Fogo, essas características ganham intensidade — o Fogo representa paixão, transformação e energia.
O último Ano do Cavalo de Fogo ocorreu em 1966, durante a Revolução Cultural chinesa. Naquele período, muitas tradições foram suprimidas pelo governo de Mao Tsé-tung. Apenas a partir da década de 1980, com a abertura econômica, as festividades foram retomadas em larga escala.
Limpeza e decoração marcam preparativos
Nas semanas anteriores ao Ano Novo, famílias realizam limpeza profunda das casas — tradição conhecida como "varrer a má sorte" (sǎochén). O objetivo é eliminar energias negativas acumuladas e preparar o ambiente para receber a boa fortuna.
Após a limpeza, residências são decoradas predominantemente com vermelho, cor considerada auspiciosa e capaz de afastar espíritos malignos. Lanternas vermelhas são penduradas nas portas, e dísticos com caligrafia dourada (chūnlián) trazem mensagens de prosperidade e felicidade.
A homenagem aos ancestrais também integra os preparativos. Famílias acendem incensos e preparam oferendas para honrar gerações passadas — prática que reflete a influência confucionista de respeito à linhagem familiar.
Jantar em família valoriza simbolismo dos alimentos
O ponto alto das celebrações é o jantar da véspera do Ano Novo (niányèfàn), considerado a refeição mais importante do ano. Famílias se reúnem ao redor de mesas redondas, um símbolo de unidade, para compartilhar pratos tradicionais.
Os cardápios variam regionalmente, mas alguns alimentos têm presença quase universal. O peixe inteiro (yú) representa abundância, pois a pronúncia da palavra se assemelha a "excedente" em mandarim. Tradicionalmente, sobra-se um pedaço no prato para "carregar" a prosperidade para o próximo ano.
Bolinhos ou dumplings (jiaozi) são populares no norte da China. Seu formato lembra lingotes de prata da antiguidade e simboliza riqueza. Em algumas famílias, uma moeda limpa é escondida em um dos bolinhos. Quem a encontra terá “sorte extra” ao longo do novo ano.
Bolos de arroz glutinoso (niángāo) representam progresso, pois o nome soa como "ano mais elevado". Rolinhos primavera, com cor dourada, simbolizam barras de ouro. Já o macarrão de longevidade (chángshòu miàn) nunca deve ser cortado durante o preparo, pois isso representaria "cortar" a vida.
Envelopes vermelhos e fogos de artifício
É tradição que, após o jantar, crianças e membros mais jovens recebem envelopes vermelhos (hóngbāo) com dinheiro. A tradição simboliza a transferência de bênçãos dos mais velhos para as novas gerações.
À meia-noite, fogos de artifício explodem em cidades chinesas. A prática remonta à lenda do monstro Nian (niánshòu), criatura mitológica que emergia na véspera do Ano Novo para aterrorizar aldeias. Descobriu-se que Nian temia barulhos altos e a cor vermelha — daí surgiram as tradições de explodir fogos e decorar com vermelho.
Festival das Lanternas encerra comemorações
As celebrações terminam no 15º dia do primeiro mês lunar, com o Festival das Lanternas (Yuánxiāo Jié). Famílias acendem lanternas coloridas, soltam lanternas celestes e escrevem desejos. Em muitas cidades, desfiles noturnos com lanternas gigantes em forma de animais zodiacais iluminam as ruas.
Um alimento tradicional dessa data são os bolinhos de arroz glutinoso doce (tāngyuán), servidos em calda. Sua forma redonda simboliza união familiar e completude.








